Foi constrangedor. O padre disse: - Tomai todos e comei, este é o meu... Nem deu tempo de terminar a frase, Cynthia soltou um jato verde de vômito no chão. Não, não era mais um caso de possessão. Gravidez é gravidez. Até o nome já diz que deve ser algo bem grave para a mulher. Tá bom leitor, essa piada não foi assim tão boa. Prometo fazer melhores trocadilhos no decorrer da trama.
Por falar nisso, cá pra nós, que ser humano em sã consciência sente desejo de comer alfafa? Faça o teste, vá no supermercado procurar por essa leguminosa. Foi lá? E aí, encontrou? Provavelmente não! Pois bem, Adrem teve de arranjar. Ser futuro pai tem seu preço. Agora imaginem só comer uma salada de alfafa...Sei lá, não consigo imaginar. Ao pensar em desejos de mulher grávida, consigo visualizar um Big Mac, um Whopper bem caprichado, sorvete, feijoada, macarronada, pizza, e por aí vai. Mas alfafa? Ok, vou parar com os questionamentos e seguir com a história.
- E aí Cy, a alfafa tá boa?
- Aham. Você é um amor Ad!
- O que não faço por você?
- É sua obrigação como futuro papai.
Adrem aproxima-se de Cynthia e encosta a mão no seu ombro, consentindo na afirmação acima dita.
Barrigão de nove meses. Cynthia lembra-se de como era bom poder caminhar sem aquele peso. Sentia vontade de dançar. Olhava seu corpo no espelho e não se reconhecia. Por mais que alguns tarados e maníacos gostem de apreciar corpos de grávidas, sou obrigado a dizer que mulheres nesse estado não ficam assim tão atraentes. Tudo bem, tudo bem, tem todo esse lance de ternura, a emoção de carregar uma sementinha com vida. Porém, tirando isso tudo só nos resta aquele corpão roliço. E Cynthia chegava a se sentir feia. Passou a perder mais tempo retocando a maquiagem, penteando o cabelo, tudo pra poder dar uma melhorada no visual. Ao andar na rua carregando aquele barril biológico, ficava apreensiva, pois tinha a impressão de que todos a observavam. E claro que todos a observavam. Se não todos, quase todos. Quem nunca teceu comentários maldosos sobre alguma grávida com a qual se deparou em certo momento da vida, que atire a primeira pedra! Algo tipo: "Olha lá, andando igual um pinguim!", ou "se ela peidar, explode a bolsa!", coisas desse tipo.
A única coisa que animava um pouco Cynthia era o fato de ter adquirido peitões. Não que estivesse insatisfeita antes, mas aquele aumento de volume fazia com que ela se sentisse um pouco mais mulher. Chegou a se imaginar no meio de uma multidão tirando os melões pra fora, segurando-os firmemente e gritando: "olhem aqui os meus seios, me orgulho deles!". Incrível o que a cabeça da gente pode imaginar quando estamos numa fila à espera de pagar conta...
Ela, como qualquer outra pessoa, odiava aquilo. Contudo, tinha que pagar a última prestação do microondas. As filas das CARMAS BAHIA eram sempre gigantescas. Não seria diferente se tivesse comprado nas LOJAS CALOMBO ou nas SULAFRICANAS.
Não ache você que a condição de grávida dela ajudou em alguma coisa nessa hora. Havia pelo menos 20 velhinhos e velhinhas na frente dela no caixa destinado a idosos, deficientes e gestantes. Sem contar os 10 deficientes, entre cegos, cadeirantes, entre outros tipos de pessoas com necessidades especiais. Não, não era fácil. Por isso Cynthia sentiu um grande alívio quando finalmente pagou a conta e pode sair dali. Foi na direção do elevador. Esperou alguns segundos. Entrou nele ao mesmo tempo que uma anã. Disfarçou bem a curiosidade. Sentia vontade de perguntar várias coisas para aquela pequena criatura que ali estava ao seu lado. A anã era morena clara e tinha a face parecida com a do Mick Jagger (dos Rolling Stones). Cynthia pensou nisso e esboçou um pequeno sorriso, que poderia ter se transformado em gargalhada, caso não segurasse. "Mini Jagger", pensou. O famoso riff de Satisfaction não saía mais da sua cabeça. Se cantarolasse um pedaço da letra naquele momento no elevador, provavelmente lhe custaria um processo.
O elevador descia o quinto, quarto andar, terceiro... PAFT! Parou. Oh não, pensou Cynthia.
A anã olhou pra ela assustada.
- Ai ai ai, parou!
- O que será que aconteceu? Perguntou Cynthia, mesmo sabendo que a anã não saberia responder.
- Pelo jeito acabou a luz do prédio.
- Tomara que logo volte.
Porém, não voltou. Cynthia parecia assustada, assim como a sua nova colega.
- Quantos meses?
- Nove.
- Nossa, já vai nascer então...
Logo que a anã terminou essa última frase, Cynthia sentiu algo estranho. Um líquido viscoso descia pelas suas pernas. A bolsa havia estourado. Ela logo entrou em desespero:
- Meu Deus, estourou minha bolsa?
- Como?
- Talvez tenha sido o estresse, não sei. O médico me garantiu que isso aconteceria daqui duas semanas!
- Vou tentar ligar pra alguém.
- Por favor, faça isso!
- Droga! O celular não pega.
- Caramba, estou ferrada!
- Vou tentar gritar e bater aqui na porta. OLÁ, ALGUÉM AÍ? PRECISAMOS DE AJUDA! TEM UMA MULHER GRÁVIDA AQUI! E O NENÊM VAI NASCER JÁ JÁ!
- Será que alguém ouviu?
- Impossível não ouvirem, na altura que gritei.
No entanto, ninguém apareceu.
- Ainda não ouvi resposta. Vou tentar de novo.
A anã gritou várias vezes e bateu na porta do elevador, mas não recebeu resposta.
- Meu Deus, comecei a sentir as dores. Já já vai nascer!
- Tenha calma, tenha calma!
- Estou tentando, mas nessa situação não é fácil.
- Sei lá, tente fazer aquela...Como é o nome mesmo? Ah, lembrei! Respiração cachorrinho!
- Você só pode estar brincando né?
- Já ouvi falar que funciona.
- Acho que você assiste muitos filmes!
- O que vale é a intenção.
Quarenta minutos depois...
- Tá doendo muito! Não aguento mais!
- Calma, calma!
- Você vai ter que me ajudar com isso! Disse Cynthia, deitada no chão, ofegante e suando muito.
- O que eu faço?
- Eu não sei bem...Ai! Dói demais!
- Mas me diga alguma coisa!
- Sei lá, eu vou forçar aqui. Preciso que me ajude a pu...Ai! Puxar!
- Puxar o bebê?
- Não, puxar meus pentelhos! É claro que é o bebê!
- Não precisa se estressar também!
- Puxe de leve, pois a cabecinha do nenêm é sensível.
- Tá bom!
- Vou forçar então, pois não aguento...Ahhh!
- Vai, vai, força!
- Minha Nossa Senhora, que dor!
- Aguente firme!
- Ahhhhhhh!
- Tô começando a ver a cabecinha saindo...
- Ahhhhhhhhhhhh! Aiiiiiii! Vamos bebê, me ajude!
- Isso, isso, você consegue! Tô puxando a cabecinha.
- Uuuuuuuuuuhhhhhhhhhhhhrrrrrrgh!
- Vem nenêm!
Renato chorou, como qualquer bebê normal. O cordão umbilical ainda o prendia à sua mãe. A anã o segurou nos braços e disse:
- É um menininho! Parabéns mamãe!
Cynthia não conteve a emoção ao olhar o bebezinho. A anã estendeu os braços e o entregou a Cynthia. Esta mirou aquela pequena criaturinha toda suja e se sentiu muito bem. Tinha seu filho no colo, era o que importava. Ficou ali, imóvel, observando sua cria. De olhinhos fechados, Renato descansava nos braços da genitora, curtindo os primeiros segundos do novo mundo no qual agora iria viver.
Cinco minutos depois a luz voltou e a porta do elevador se abriu. Aqueles que observaram a cena ficaram embasbacados: aquela mulher segurando o filho recém-nascido foi assunto de muitas famílias naquele dia. Inclusive de Nina, a anã.
No hospital Adrem Observou o filho por trás do vidro da sala onde ficavam os bebês que haviam acabado de nascer. Sentiu felicidade por ser pai.
A vida teria de ser diferente a partir daquele momento. Adrem tinha essa esperança, assim como Cynthia. A nova mamãe teve de se acostumar a trocar fraldas, dar de mamar, carregar o filho pra lá e pra cá. E ele chorava. Era um choro de angústia, parecia. Mas a angústia talvez fosse da própria Cynthia, a qual se sentia deslocada. Não conseguia ficar feliz por ter uma família. Renato era apenas um grãozinho de felicidade numa praia de aflição. E o sofrimento de Cynthia tinha nome: Adrem. Talvez não o amasse mais. Talvez o próprio Adrem era quem não a amava. A relação caiu na rotina, apesar da presença do picorrucho que agora fazia parte daquela casa.
E o bar era o consolo de Adrem. Ele não estava preparado para ser pai, era o que pensava. Por entre as pernas de Leda Ca passava os poucos minutos de felicidade de sua semana. Não sentia vontade de fazer amor com sua mulher, talvez por remorso, ou por sentir pena de si mesmo. Cynthia, por sua vez, tentava se distrair com o filho. Quando a criança dormia ela chorava. Sentia solidão. No escuro do quarto, ao lado do seu marido, olhava para o teto e imaginava uma vida melhor.
Renato não puxou a descarga, foi um alívio. No entanto, Adrem avistou Cynthia entrar no banheiro logo após o filho sair.
- Renato, hora de tomar banho!
- Ah mamãe!
- Venha cá moleque, anda!
- Não gosto de banho...
- Não tem que gostar, tem que fazer. Não quer ficar limpinho? Você é o Cascão da Turma da Mônica?
Ligou o chuveiro e começou a ensaboar o corpo do pequenino. Adrem gostou daquilo. Sentiu alegria por ter aquela família.
- Viu como é gostoso tomar banho?
- Não é não! Disse o menino com cara de aborrecido.
- Tem que ficar bonito no dia do seu aniversário. Logo vovô e vovó chegam!
- Aê!!! Festa!
- Gostou não é?
- Aham!
Festa de aniversário? Vou perder a festa de aniversário do meu filho? Perguntou-se Adrem.
DING DONG!
A campainha tocou. Cynthia apurou, enxugou o filho e gritou: - Já vai! Espera aqui filhote, mamãe já volta com a roupinha pra te vestir!
Foi até a porta e a abriu. Adrem escutava atentamente, curioso para saber quem era.
- Olá Leda!
- Cynthia! Quanto tempo!
- Pois é, acho que faz dois anos que não te vejo! E eu nem sabia que você tinha filho.
- Não sabia?
- Não, só soube através de minha mãe, quando a disse que lhe convidaria.
- Hummm...
- Como é o nome dele?
- Adrem Ococ Filho!
Cynthia arregalou os olhos. Adrem, mesmo sendo um cocô, sentiu um frio na espinha...