segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Capítulo 6 - Chiqueirus bar

Tinha acabado o colégio. 18 anos. Nada para fazer, nada para assistir na televisão. Aonde estavam seus amigos? Deviam estar por aí, se divertindo. Vê o que tem na geladeira. Hummm, vou tomar um copo de leite! Pensou. Encheu o copo, tomou num só gole. Deitou na cama. Aquele dia se repetiu eternamente. Você precisa sair menina! Disse sua mãe. Era verdade, Cynthia precisava sair. Tinha que voltar a ter aquela comum vontade de viver; necessitava de diversão. Emprego? Não, ela não tinha vontade de ter um chefe. Quem sabe vender cosméticos por aí. Ah, mas aí precisaria conseguir um clientela, e isso dá muito trabalho.

- Acho que vou ligar para a Salete (sua única amiga) pensou.

Pegou o telefone, discou.

- Alô!
- Olá Sa! Como está?
- Cy!!! Estou bem, e você?
- Estou bem também! Só que muito entediada!
- Vamos dar um jeito nisso.
- Como?
- Que tal a gente sair no sábado?
- Por mim tudo bem.
- Então tá. Vai ser muito legal te rever!
- É, já faz o que, seis meses?
- Mais ou menos...
- A gente tem que se ver.
- Sim!
- E para onde nós vamos?
- Tem um barzinho bem legal não muito longe da minha casa. Chiqueirus Bar.
- Que nome horrível!
- Ah, mas o nome engana! É muito bom, você vai ver!
- Então tá bom, confio em você amiga.
- Eu pego um táxi e passo aí na sua casa lá pelas sete no sábado, tudo bem?
- Tudo!
- Então está combinado!
- Está! Até mais Sa!
- Beijo! Tchau!


Sabadão, hora de sair, pensou. O expediente foi puxado. Ele teve que limpar 3 fossas. O banho teve de ser demorado pra tirar aquele cheiro. Estava ali, limpinho agora. Roupa, roupa, roupa. Isso! Ele adorava se vestir de esporte finol. Iria sair de fininho para seu pai não notar. Ele não gostaria muito de saber que Adrem gastava o suado dinheiro com balada, bebida. Desodorante "Belzebu", aquele que deixa cheiroso até urubu, como dizia a propaganda. Passou nas axilas.

Tinha que pegar o ônibus logo, senão não chegaria a tempo de pegar o coquetel grátis que era servido para aqueles que chegassem antes das sete e meia no Chiqueirus Bar. Abriu a porta, foi bem devagar em direção à saída. Isso, liberdade! Agora teria de andar mais rápido. Jà estava escurecendo. Só ele no ponto. Assoviou a música do caminhão de lixo (Beethoven). Avistou virando a esquina: Higienópolis. Era esse mesmo que tinha de pegar. Acenou para o ônibus parar. Vamos que vamos! Pensou. Pagou o dinheiro e passou a roleta de maneira esnobe, com olhos de magnata. Sentou no fundo perto dos meninos calçudos que estavam com um mp4 falsificado tocando Hey Ya do Outcast. Como esses tipos irritavam Adrem. Tudo bem, pensou, logo chego. Uma velhinha fedida entrou no ônibus. De longe ele pensou: Não, que ela não venha sentar do meu lado. E foi o que aconteceu. A velhinha devia ter feito nas calças, não era possível! E ainda por cima estava cheia de sacolas. Adrem pensou por um momento no porquê de as velhinhas viverem cheias de sacolas de plástico. Devia existir uma cidade só com velhinhas com sacolas de plástico. Teve um dia em que ele contou no ônibus e havia dez dessas velhinhas. Inacreditável! Ela sentou do lado dele e Adrem lembrou: Prefiro a fossa. Ainda bem que cheguei, pensou. Apertou o botão para o ônibus parar. Avistou a placa: Chiqueirus Bar. É hoje! disse pra ele mesmo.

- Olá Ranho!
- Oi Adrem!
- Como está a casa?
- Hoje vai lotar, tem show do BostaXZero!
- Olha, legal! Vou curtir!
- Como anda o trabalho?
- Sempre a mesma merda! Fossa pra limpar todo o dia. Tenho que ganhar a vida, fazer o quê?
- Quando abrir vaga de segurança aqui no Chiqueirus eu te dou um toque.
- Beleza Ranho! Você sempre foi um amigo fiel.
- Que isso Adrem, eu te devo várias.
- Que isso, faço tudo pelos amigos.
- Se não fosse você, não tinha casado com a Perebinha.
- E como ela está?
- Ah, meio chatinha como sempre, mas eu a amo, você sabe.
- Isso aí! Mas não dê mole pra ela não. Coloque a Perebinha nos eixos!
- Tá certo!
- Vou entrar então cara.
- Toma a fichinha. A entrada pra você é de graça!
- Valeu mais uma vez Ranho!
- Que isso, divirta-se!

Adrem entrou. Logo pegou o coquetel grátis. Curtiu um pouco o som emo da BostaXZero. Achou o vocalista com jeito de homossexual, mas não tinha nada contra. Olhou para os lados, só gatinhas. Tinha que investir em alguma. Chegou numa loirinha:

- Oi, tudo bem?
- Tudo.
- Você vem sempre aqui?
- Porra cara, essa é velha já.
- E daí?
- Daí que é tosco! Tchau!

Poxa, logo no começo da balada já um fora desses Adrem?! O jeito é pegar mais um coquetel. Olha, uma ruiva baixinha! Nosso amigo vai até lá:

- Olá!
- Sai fora!

Nossa, hoje está difícil, disse em voz baixa. Outro coquetel. BostaXZero cantava Caguei em Você, um grande sucesso que tocou no Domingão do Cagão. O tempo foi passando, Adrem foi tomando mais e mais. Como ele gostava de balada. Beber era o melhor remédio para esses foras que ele tomava de vez em quando, nos momentos em que a inspiração necessária pra pegar a mulherada não aparecia. Ele ficou tão bêbado que chegou a chorar quando a banda tocou Entre Rabões e Peitões. Estava doido, doido. Girava pra lá e pra cá com o copo de cerveja na mão. De repente o copo voou e atingiu alguém.

- Filho da puta!
- Desculpa moça!
- Só podia ser você mesmo! O cara do limpa fossa!
- É você? Oi, prazer.
- Prazer nada, olha, tô toda suja!
- Eu não...É...
- E ainda por cima está bêbado!
- É que...Que...
- Tô indo embora.
- Vamos embora mesmo Cy! Disse Salete.
- Pera...É que.

Ela saiu do Chiqueirus Bar.
Adrem foi atrás cambaleando. Chegou perto das duas:
- Moça...
- Eu já disse que tô indo embora seu, seu, seu bêbado!

Ele encosta no ombro dela e:
- Você é linda!

PAFT! Um tapa na cara.

Adrem chegou a cair no chão e bater a cabeça. Um tapa era suficiente para fazê-lo cair, sem dúvida!

- Cy, acho que você matou ele!
- Será?
- Ai ai ai, você tá fudida! Amanhã vai aparecer no noticiário.
- Para Sá!
- É verdade! Tinha várias testemunhas ali dentro!
- E o que a gente faz?
- Sei lá!
- Dê alguma idéia!
- Já sei, vamos levá-lo lá pra casa. Se ele morrer, a gente enterra.
- Essa é sua grande idéia?
- Ou isso, ou prisão, o que você prefere assassina?
- Ai meu Deus!
- Vamos chamar um táxi.
- Sim, vou ligar.
- Ok.

Ela liga para o táxi.

- Pronto.
- Agora vamos tentar levantá-lo.
- Será que eu consigo?
- Vamos tentar!
- Ok!
- Viu, ele nem é assim tão pesado.
- Tá respirando?
- Ainda está. Mas nunca se sabe, porque ele pode ter uma morte súbita.
- Pára de falar essas coisas!
- Olha ali o táxi, que rápido!

Elas entram no carro.

- Para onde meninas?
- Higienópolis mesmo, aqui pertinho, rua do esgoto número 51.
- Tudo bem!

Chegaram rapidamente na casa de Salete. Pagaram o taxista. Entraram. Adrem ainda estava desacordado.

- Vamos meter esse filho da puta no chuveiro gelado.
- Isso não pode matá-lo mais rápido?
- Sei lá, não sou médica!
- Você não tem coração Sa!
- Cala a boca e me ajuda a levá-lo.
- Tá.

Seguraram Adrem embaixo do chuveiro. Adrem acorda e grita:

- Ai, que frio da porra!
- Viu só bebum, isso que dá encher a cara! Diz Salete.
- Você merece isso. Fala Cynthia sorrindo, mais tranquila por Adrem aparentar estar bem.
- Agora termine o banho sozinho. Vou pegar as roupas que meu ex-namorado deixou aqui em casa e te emprestar. Você vai ter que passar a noite aqui.
- Tá bom! Ele fala, quase querendo chorar.

Adrem terminou o banho. Se enxugou e vestiu as roupas do ex-namorado de Salete. Quando saiu do banheiro, viu que o sofá já estava arrumado para ele se deitar. Pelo menos não trabalho no domingo, pensou.

Amanheceu o dia. O galo cantou três vezes. Adrem acordou e viu as meninas preparando o café.

- Bom dia!
- Bom dia! responderam as duas simultaneamente.
- Poxa, queria muito me desculpar...
- Que isso, essas coisas acontecem. Respondeu Cynthia.
- E você nos deu um susto e tanto! Disse Salete.
- Eu sei. Acharam que eu tinha morrido, não?
- Sim, e iríamos enterrá-lo, esconder seu corpo, caso fosse verdade! afirmou a amiga de Cynthia.
- Como você é cruel...
- Ela é assim mesmo, não ligue. Cynthia respondeu, sorrindo.
- Eu percebi.
- Qual o seu nome mesmo? Perguntou Cynthia.
- Adrem, Adrem Ococ.
- O meu é Cynthia!
- E o meu é Salete.
- Bonitos nomes!
- Obrigada! Responderam juntas, mais uma vez.
- Meninas, eu tenho que ir. Como posso conversar com você novamente?
- Sei lá, será que você merece? Brincou Salete.
- Me dê uma chance!
- Tudo bem. Cynthia, passe o seu número pra ele!
- Por que eu?
- Ué, porque vocês já se conheceram antes, não é!?
- Eita! Tudo bem. Espera, vou anotar.
- Isso!
- Pronto! Toma. E vê se dá próxima vez que a gente se ver você seja menos desastrado!
- Tá bom! Prometo que nunca mais derramarei nada em você!
- Promessa é dívida!
- Cumprirei! Tchau!
- Tchau! Responderam.

Os dias se passaram. Adrem louco pra entrar em contato com Cynthia. Ela tinha alguma coisa que lhe chamava atenção. Talvez estivesse apaixonado pelo jeitinho da menina. Seria a primeira vez. Ele era muito acostumado com casos rápidos, transas ligeiras, até mesmo putas. Cynthia tinha um ar angelical, olhos castanhos claros, cabelos lisos, pele levemente morena, estatura mediana e muito, muito feminina.

- Alô!
- Oi, aqui é o Adrem.
- Você? Vai querer me sujar de novo?
- Engraçadinha...
- Tudo bem?
- Tudo!
- Estava pensando aqui...Er...Você tá a fim de dar uma volta comigo no parque?
- Hoje?
- Sim, hoje, porque estou de folga.
- Hummm...Deixa eu ver. Pode ser. Que horas?
- A gente pode se encontrar na Praça da Gazela, aquela do chafariz lá por 3 da tarde. O que acha?
- Por mim tudo bem.
- Então combinado!
- Tá bom.


E eles se encontraram. Olha leitor, você pode estar se perguntando: mas Adrem não era um merda? Sim, ele era. Acontece que vocês precisam concordar que um homem apaixonado fica diferente. Isso não fugia à regra com ele. Fez de tudo pra conquistar Cynthia. Pagou jantar pra ela; elogiou seus olhos; elogiou seus cabelos; elogiou sua roupa; disse que era inteligente; andou de mãos dadas com ela, e assim por diante. Chegou até a mandar flores! Adrem estava se superando! Não demorou um mês para darem o primeiro beijo. Cynthia tinha caído na teia dele, definitivamente. Depois de verem um filme com um nome muito estranho no cinema - Entre Quatro Vaginas - Adrem a pediu em namoro. Ela aceitou com um sorriso no rosto. Se beijaram novamente. O mundo foi deles naquele instante.



A água tinha voltado. Nosso benemérito cocô estava preocupado. A qualquer momento Cynthia ou até mesmo o seu filho apareceriam para puxar a descarga. Seria com certeza o fim de Adrem. Ele nunca teve tanto medo do esgoto. Meu casamento, pensou. Sim, ele começou a se lembrar do seu casamento, e como aquilo que parecia bom a princípio começou a virar uma merda...

Nenhum comentário:

Postar um comentário