segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Capítulo 4 - Um Bosta Namorador

Adrem lembrou de quando era adolescente. Não era bonito, nem atraente. Não gostava de estudar, nem de ler, nem de jogar futebol. Nunca foi muito bom em fazer amigos também. Preferia não fazer nada. Havia só uma coisa que realmente apreciava: meninas. Só que era extremamente tímido, o que dificultava as coisas. Sua primeira namorada Adrem teve somente com 17 anos. A conheceu de uma maneira meio inusitada. Ele passeava tranquilamente de bicicleta quando perdeu o freio inexplicavelmente e acabou atingindo o tornozelo da garota. Ela não ficou tão mal assim, só teve que ficar com um gesso durante dois meses. Adrem aproveitou para conhecer melhor a menina nesse tempo. Passava na casa dela diariamente para ver se estava tudo bem. Não demorou muito para os dois ficarem amigos; foram ficando cada vez mais próximos e a amizade cada vez mais colorida.
- O que você tem aqui na boca?
- Aonde Adrem?
- Aqui ó!
- Aonde?!!
E Adrem lascou um beijo na menina! É meu caro leitor, nosso amigo não era assim um merda completo na adolescência, pois em alguns momentos mostrava um pouco de atitude.
- Seu bobão, eu caí direitinho nessa!
- Mas bem que gostou! haha!
- É, mas eu poderia ter lhe dado uns tapas.
- Eu iria gostar...

E assim começou a vida amorosa de Adrem. Depois dessa namorada, outras 30 vieram em poucos anos. O garoto que não gostava de fazer nada havia achado sua verdadeira vocação: conquistador. Todavia, essa função não combinava muito com o papel social de um merda.

O problema era que Adrem avacalhava demais com as meninas. Das mais de 30 namoradas que arranjou dos 18 aos 25 anos, grande parte abandonou após 1 mês de namoro. Ele fazia promessas de amor eterno, e, por mais que isso pareça um clichê gigantesco, levava as meninas para a cama. Poucos dias depois de conseguir o que queria, as abandonava sem dó nem piedade. Não era uma total crueldade consciente isso, mas instinto inevitável de uma verdadeira bosta humana.O pior é que em alguns momentos nem era preciso Adrem fazer muito esforço para conseguir mais meninas: era só ir numa festa, passear no parque, ir na igreja, esperar o ônibus; daí só puxar um papo e pronto! E como nosso amigo merda não era tão culto, os papos eram sempre os mesmos. Isso era de menos, pois todas caíam na sua rede como se fossem peixinhas bobinhas de aquário. No final, só restavam peixinhas tristinhas e desiludidas.
Até seus 35 anos de idade, Adrem teve muitas, mas muitas namoradas; e também muitos casos perdidos por aí. Daria para encher um rio com tantas lágrimas de mocinhas arrependidas, as quais antes de conhecer o cafajeste eram tão puras quanto anjos de luz.
Não disse um detalhe importante: nosso amigo conheceu o prazer da bebida já aos 20 anos. Com essa idade percebeu que também tinha a vocação para bêbado. A bebida o estimulava nos encontros e lhe dava coragem nas conquistas, visto que aquela timidez da adolescência ainda teimava em aparecer nos momentos mais importantes. O álcool, portanto, estava colocado num pedestal. Era seu companheiro fiel dos momentos solitários.Uma ida ao bar, uma dose, e a energia parecia que voltava ao rapaz. Aquilo o ajudava a mentir descaradamente para as mocinhas. Com a chegada dos 20 e poucos anos, suas idas ao bar em busca de cachaça e cerveja se tornaram mais frequentes. Não ia nesses lugares buscar sociabilidade, mas a própria bebida. Geralmente chegava, pedia uma dose, tomava num gole só e pagava com algumas moedinhas. Se não estivesse satisfeito, pedia outra dose, e mais outra, e assim por diante. Se alguém puxasse papo ele não respondia, a não ser que fosse uma mulher. Sempre comprava balas de hortelã para esconder o bafo das namoradas.
Falamos em moedinhas. Como Adrem as conseguia? aos 18 anos, após ser dispensado do serviço militar por excesso de contingente, e após ter terminado o ensino médio - o que fez "empurrando com a barriga"- estava preparado para trabalhar. Entretanto, não tinha vocação para nenhum emprego, e nem tinha vontade de trabalhar.
- Vá arranjar trabalho, ou então rua! Disse uma vez o pai de Adrem, o qual havia se aposentado com 65 anos de idade como motorista de uma empresa de transporte.O jeito então, após essa pressão paterna, era arranjar algum emprego, ou fazer alguma coisa que gerasse dinheiro.
Procurou em vários lugares, mas em todos se exigia experiência, coisa que Adrem não tinha. Os anúncios nos jornais eram sempre os mesmos; estava realmente difícil arranjar algo. Um dia conseguiu uma entrevista para trabalhar num mercado, mas foi logo dispensado após relatar não ter conhecimento em informática. Fez um concurso público na prefeitura, todavia não conseguiu atingir a média geral.
- Mas é um vagabundo mesmo! Se não conseguir emprego até a semana que vem pode arrumar as malas e sair de casa! Disse seu pai, lhe pressionando mais e mais, enquanto sua mãe chorava e ficava paralizada diante da rigidez de seu marido com relação ao filho.
- Calma, o rapaz está procurando.
- Está nada, fica aí o dia inteiro deitado, esse burro! Se pelo menos estivesse interessado em estudar nós poderíamos pagar um cursinho, mas é um vadio! Tem que se ferrar mesmo, burro do jeito que é! Gritava o pai, esbaforido.Pressionado, Adrem aceitaria qualquer coisa para fazer. Tinha uma semana para isso, senão provavelmente iria parar debaixo da ponte com o resto dos mendigos.

Um dia estava no boteco tomando sua dose diária quando sentiu um cheio de merda. Aquilo estava realmente muito forte, pois dificilmente algo conseguia chamar tanta atenção dele nos momentos em que se concentrava na bebida. O cheiro vinha da direção de um homem, o qual se sentou ao lado de nosso companheiro. O ambiente se infestou.
- Dá aquela de sempre!
- Opa, lá vai! Disse o dono do bar.

O homem começou a papear com o sujeito que lhe serviu a bebida no balcão.
- Como está o trabalho?
- A mesma coisa de sempre. Época de campanha eleitoral você sabe, o serviço triplica. Só dá candidato nos contratando pra ganhar votos.
- Hummm...Que coisa. E está muito puxado o serviço?
- Agora está. Um amigo meu, o Fezinha, morreu na semana passada. Você não soube?- Não o conheço!
- Era um grande camarada. A gente trabalhava junto fazia 8 anos. Semana passada foi atropelado por um caminhão.
- Nossa!
- Ficou todo estraçalhado. No velório, o caixão teve que ficar fechado, pois só havia pedaços dele lá dentro. Horrível!
- Putz, que merda!
- Agora a gente está precisando de um substituto lá na empresa. Se souber de alguém que queira trabalhar lá, avise que é só dar uma passada ali na Rua do Rosário, número 32. Fica no bairro Boston.
- Tudo bem, eu aviso sim.
- Valeu! Eu vou então, pois a patroa deve ter feito a janta. Até mais!
- Até!
Adrem ouviu toda a conversa. No mesmo dia já estava no suposto lugar. Apertou a campainha e uma velhinha o atendeu. Disse então que estava interessado no emprego.
- Então pode começar amanhã! Disse a senhora.
- É aqui mesmo?
- Sim. Chegue às 5 da manhã! Não se atrase! - Ok.

Foi difícil acordar cedo, pois acostumara a dormir até 11 da manhã. Levantou, deu uma arrumada no cabelo, lavou o rosto e saiu de bicicleta. Chegou quando faltava 5 minutos para as 6. A mesma velhinha estava lá.
- Esse é o seu uniforme, vista-o. O banheiro é aqui do lado. Essa roupa é responsabilidade toda sua, portanto cuide dela.
Era um macacão verde-escuro, nada atraente.
- Logo vai chegar o caminhão. Aguarde!

Aos poucos foram chegando outros sujeitos vestidos com aquela roupa. Eles cumprimentavam a velhinha e ficavam próximos à porta, aguardando. Logo chegou um caminhão também verde-escuro. O motorista desceu, foi até a parte de trás de caminhão e abriu as portas. Lá dentro Adrem conseguiu perceber que havia enxadas, pás, cortadeiras, entre outros tipos de ferramentas.
- Vamos pessoal! Gritou o motorista. Todos começaram a entrar no caminhão, dividindo espaço com as ferramentas. Adrem ficou só observando, quando a velhinha o avisou:- Vamos rapaz, vai trabalhar ou não?!

Ao caminhar para se unir aos outros trabalhadores, Adrem leu o que estava escrito na lateral do veículo: Rodriguez Limpa Fossas. O espanto de nosso companheiro foi imenso. Ia em frente ou não? Ao mesmo tempo em que via os trabalhadores lhe chamarem, já irritados pela sua demora em adentrar no veículo, lembrou da expressão irritada do pai quando o pressionou para conseguir um emprego. Não tinha escolha, pois ou enfrentava a fossa ou teria de sair de casa.
Adrem entrou no caminhão. O veículo acelerou e sumiu ao virar a esquina. A velhinha fechou a porta do estabelecimento não sem antes dar um leve sorriso.

Sua esposa puxou com força mas nada aconteceu. A água havia acabado, por sorte do nosso querido toletão. Adrem nunca pensou que poderia ficar feliz com a já tão corriqueira falta de água. Teria mais alguns momentos de existência. Sua esposa parecia não se conformar; ficou ainda mais irritada com aquilo. De repente tudo ficou escuro. Ela havia fechado a tampa da privada. Na escuridão, nosso amigo começou a lembrar de como havia conhecido sua mulher...

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