segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Capítulo 7 - O casamento do excremento

Minha filha vai casar! Pensou Segismundo Witthoft. E com aquele sujeitinho...

Cynthia fala com Salete: - Serei muito feliz! Adrem é um doce de pessoa.

Enquanto isso, no quarto de Adrem...

- Vai, vai, vai, não pára!

- ahhhhhhhhhhhhhh!!!

- Hummmmm!

- Nossa, demais!

- Meu noivinho preferido...

- Não me lembre, fico com remorso.

- Não estou nem aí, não é meu problema! Disse Leda Ca.

- Leda, você não presta.

- Olha quem fala!


Cynthia experimentou o vestido e disse: - Nossa Salete, não vejo a hora de subir no altar!

- Vai realizar o sonho de toda mulher, meu bem!

- E de alguns homens também...

- Verdade.

- Filha, está linda! Afirmou Gervásia Witthoft.

- Eu sei mãe! Respondeu alegremente.

- Seu pai está andando pra lá e pra cá, ansioso pelo ensaio do casamento. Ele fica resmungando umas coisas que não consigo entender...

- Deixa ele! Papai é assim mesmo.

- Eu sei Cynthia. É que você é nossa filha única, e esse momento é muito importante pra gente. Disse com lágrimas nos olhos.

- Vai dar tudo certo mãe. Fica calma.



À noite, no boteco.



- Se fudeu, vai se amarrar!

- Fica quieto Tibúrcio!

- Melhor tomar uma bem forte...A malvada é o melhor remédio pra você meu camarada!

- Desce uma daquelas Tadeu!

- É pra já.

- Quem diria hein Adrem, casará amanhã.

- Isso aconteceria uma dia. O importante é ser feliz.

- É mesmo. Eu mesmo já pensei em casar. Só que toda vez que penso, vem uma ânsia. Lembro de toda essa mulherada solta por aí.

- Estarei casado, não morto!

- Mas sei lá né cara, vai ser mais complicado...

- Cala a boca e bebe Tibúrcio!

- Hehe, tá certo.

- Você já amou alguém?

- Que papo de gay é esse?

- Pare, não fuja do assunto!

- Talvez. Uma vez conheci uma menina chamada Aurora. Gostosa da porra! Sabe essas loiras que te deixam doido? Então, era essa. Eu tava caindo na dela aos poucos. Fizemos altas loucuras. A gente se chapava e fodia hahahahah! Era assim durante toda a semana. Um dia eu cheguei na casa da vadia e entrei sem bater. Adivinha...Tava dando o rabo para um morenão de dois metros de altura!

- Putz! E o que você fez?

- Fiquei lá olhando por um tempo, fudido da cara! Era muita vergonha...Aí percebi que na cabeceira tinha um pacotinho de cocaína. Agi muito rápido. Eu tinha de me vingar daquela puta!

- Até imagino o que aconteceu...

- Liguei pra polícia e fiz denúncia de tráfico.

- Ela foi presa?

- Sim, ela e o moreno. Os "homi" não demoraram muito pra arrombar a casa e prender os dois. Foi muito engraçado. Logo que a polícia entrou na casa pra "prendê" os dois se formou uma multidão de curiosos. Eu fiquei lá no meio, rindo.

- Que história!

- Demais. E sabe o que é o melhor de tudo?

- O quê?

- O pó era meu!

- Como assim?!

- Ela me fez comprar aquilo pra gente usar antes da transa. Olha só como eu me arriscava pela danada!

- Você podia ter sido preso!

- Não fui, por isso tô aqui bebendo com você.

- Pura sorte.

- Pelo menos não vou casar...

- Já disse pra calar a boca! Desce mais uma Tadeu!

- É pra já.


No outro dia.

Cabeça pesada. Isso que dá beber Adrem. Esse é o grande dia. Domingo, folga e casamento. Olhar remelento no espelho. Chuveiro, água pra limpar toda a sujeira que sobrou do sábado.

- Vamos filha, não podemos nos atrasar!

- Tô indo mãe, só vou retocar mais um pouco a maquiagem! Disse Cynthia.

Adrem se observa na frente do espelho, agora com o paletó. Aquilo parecia não combinar com ele.

Segismundo batuca o volante, ainda ansioso. Iria perder a filhinha.

Gervásia espera encostada na porta do Gol cinza. A filha aparece. Entram no carro e somem. A Igreja seria a próxima parada.

Adrem entra no carro de João, primo de Cynthia. Carona é o que há, pensou!



- Cynthia Witthoft, aceita Adrem Ococ como seu legítimo esposo? Disse o padre.

- Não!

A mutidão faz: oooooooohhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!



No entanto, esse era apenas um pensamento de Adrem. Não conseguia parar de imaginar isso enquanto seguia na direção da Igreja. Pensava em outras coisas também que poderiam fazer o casamento virar um desastre ali mesmo, no altar.

- Se existe alguém que é contra a realização desse casamento, que fale agora ou se cale para sempre!

Leda Ca se levanta, seguida de uma multidão de mulheres lindas, todas com olhos de ressaca. Gritam em alto e bom som:

- NÓS!!!!

-Pára de imaginar isso, pensou, vai dar tudo certo!

Chegou a imaginar até um avião caindo na Igreja, um ataque de extra-terrestres, um enchente, terremoto, erupção vulcânica. - Vai dar tudo certo, repetiu.


Dentro da Igreja muita gente chorando. Segismundo não se conformava. Gervásia estava aos prantos. Leda Ca acompanhava lá do fundo, vestida com um vermelho ferrari provocante. Tibúrcio parecia invejar tanta atenção dada a Adrem. Salete somente sorria, apesar de não confiar muito no noivo.

- Eu vos declaro marido e mulher! Pode beijar a noiva.

Beijaram-se como se estivessem na corte de Luís XIV.

A festa correu bem. Salete saiu antes do previsto, pois quebrou o salto. Tibúrcio acabou bêbado e bateu o carro no poste de leve, mas o suficiente pra ferrar com o motor. Dormiu ali mesmo. Segismundo e Gervásia dançaram o quanto puderam e ficaram com sono lá por 2 da manhã. Se fartaram com o bolo. Leda Ca foi parar no motel com um sujeito com cara de psicopata que conheceu na festa. Ela sentia atração pelos tipos mais esquisitos. Adrem a Cynthia dançaram muito, curtiram, se deliciaram em beijos e alegria. A noite de núpcias foi num hotel bem chique do centro da cidade.

- Venha aqui minha linda, gostosa, cheirosa.

- Safadão!

- Bem que você gosta disso.

- Por isso estou com você.


A noite foi intensa.

O casamento ia bem no começo. Adrem continuou trabalhando no limpa fossa. Cynthia ficava cuidando de casa. Tinha vontade de fazer faculdade, mas precisava de dinheiro pra pagar cursinho. Poderia procurar emprego, mas Adrem não gostava da idéia. Talvez quisesse manter a esposa submissa.

- Amor, eu tenho vontade de trabalhar...

- Já falamos disso Cynthia!

- Ah, me sinto presa aqui.

- Isso logo passa...

- É porque não é com você!

Logo Cynthia passou a não suportar mais o cheiro do marido. Aquele aroma de fezes era enjoativo. Tomava banhos longos, pois sentia como se ela mesma estivesse suja. Adrem também começou a ver muitos defeitos em Cynthia. Achava que ela era muito criança ainda, e que falava demais. Tinha manias muitos esquisitas pra ele, como a de deixar copos com água espalhados pela casa. Aquilo era irritante. Ela enchia o copo, tomava um pouco e largava em qualquer lugar. Fazia isso com frequência. Também não acostumou com os cabelos no ralo. Calcinhas penduradas nos cabides. Sangue no fundo do vaso (custava dar a descarga mais uma vez? pensava ele). Ele queria ver o futebol, ela novela. Queria comer feijão e arroz, ela macarrão. E a comida que Cynthia fazia não era assim tão boa para Adrem. O casamento estava indo para o ralo, assim como os cabelos da garota.

O jeito era curtir o Chiqueirus Bar nos sábados, sozinho, escondido. O Boteco também era uma coisa que deixava nosso amigo um pouco mais feliz. Pelo menos lá esquecia um pouco o trabalho. Se encontrava frequentemente com Leda Ca. Esta começou a transar com Adrem por pura compaixão, sabendo que ele se sentia preso pelo casamento. O Bufa Motel agradecia por aqueles 60 reais que faturava todo domingo à noite.

No segundo ano de casamento Adrem passou a exagerar na bebida. Chegava e ia direto pra cama. Ou passava horas no banheiro botando pra fora tudo que havia ingerido e muito mais. Quando estava sozinha, Cynthia chorava. Não queria mais aquela vida. Era jovem, bonita, inteligente. Ligava pra Salete contando tudo que acontecia. Salete pedia para que ela deixasse Adrem, pois ele não valia o esforço do casamento. Ache um homem decente pra você! Dizia.

O casamento chegou numa fase em que Adrem só procurava Cynthia para fazer sexo. Ela sentia nojo daquele cheiro dele, mas cedia, não se sabe o porquê. Ele terminava rapidinho o serviço e se virava para o outro lado. Roncava e soltava gases. Cynthia por várias vezes saía do quarto e ia dormir no sofá da sala. Não estava aguentando mais aquela situação.

Numa manhã qualquer sentiu tontura. Vomitou.

- Estou grávida!

- Você não estava tomando a pílula?

- Devo ter esquecido algum dia! Não me culpe, eu disse que era melhor você usar camisinha!

- Fazer o quê?! Agora o jeito é a gente aceitar isso.

- É. Pelo menos é um filho, não câncer!

- Sou muito jovem pra ser pai.


Ser pai. Ser pai. Aquela frase chicoteava o cérebro de Adrem. Ele era pai. Não podia acabar afogado no esgoto, trucidado por ratos. Não podia morrer, porque ele tinha um filho pra criar.

Renato, seu filho, apareceu no banheiro. Enquanto o menino fazia xixi em cima do pai, Adrem começou a relembrar o nascimento do filho. Aquele menino era tão importante para ele. Se fosse pra alguém puxar a descarga e acabar com sua vida, que essa pessoa fosse Renato.

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