segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

BEM VINDOS

Resolvi criar esse blog para postar meu livro. Eles já fez muito sucesso em algumas bases de textos online. Quero agora receber o retorno do público em geral. Espero que gostem e que dêem muitas risadas com a saga de Adrem Ococ. Boa Leitura!


Leandro Francisco de Paula

Capítulo 8 - A anã, o elevador e um choro agudo

Foi constrangedor. O padre disse: - Tomai todos e comei, este é o meu... Nem deu tempo de terminar a frase, Cynthia soltou um jato verde de vômito no chão. Não, não era mais um caso de possessão. Gravidez é gravidez. Até o nome já diz que deve ser algo bem grave para a mulher. Tá bom leitor, essa piada não foi assim tão boa. Prometo fazer melhores trocadilhos no decorrer da trama.

Por falar nisso, cá pra nós, que ser humano em sã consciência sente desejo de comer alfafa? Faça o teste, vá no supermercado procurar por essa leguminosa. Foi lá? E aí, encontrou? Provavelmente não! Pois bem, Adrem teve de arranjar. Ser futuro pai tem seu preço. Agora imaginem só comer uma salada de alfafa...Sei lá, não consigo imaginar. Ao pensar em desejos de mulher grávida, consigo visualizar um Big Mac, um Whopper bem caprichado, sorvete, feijoada, macarronada, pizza, e por aí vai. Mas alfafa? Ok, vou parar com os questionamentos e seguir com a história.

- E aí Cy, a alfafa tá boa?

- Aham. Você é um amor Ad!

- O que não faço por você?

- É sua obrigação como futuro papai.

Adrem aproxima-se de Cynthia e encosta a mão no seu ombro, consentindo na afirmação acima dita.


Barrigão de nove meses. Cynthia lembra-se de como era bom poder caminhar sem aquele peso. Sentia vontade de dançar. Olhava seu corpo no espelho e não se reconhecia. Por mais que alguns tarados e maníacos gostem de apreciar corpos de grávidas, sou obrigado a dizer que mulheres nesse estado não ficam assim tão atraentes. Tudo bem, tudo bem, tem todo esse lance de ternura, a emoção de carregar uma sementinha com vida. Porém, tirando isso tudo só nos resta aquele corpão roliço. E Cynthia chegava a se sentir feia. Passou a perder mais tempo retocando a maquiagem, penteando o cabelo, tudo pra poder dar uma melhorada no visual. Ao andar na rua carregando aquele barril biológico, ficava apreensiva, pois tinha a impressão de que todos a observavam. E claro que todos a observavam. Se não todos, quase todos. Quem nunca teceu comentários maldosos sobre alguma grávida com a qual se deparou em certo momento da vida, que atire a primeira pedra! Algo tipo: "Olha lá, andando igual um pinguim!", ou "se ela peidar, explode a bolsa!", coisas desse tipo.

A única coisa que animava um pouco Cynthia era o fato de ter adquirido peitões. Não que estivesse insatisfeita antes, mas aquele aumento de volume fazia com que ela se sentisse um pouco mais mulher. Chegou a se imaginar no meio de uma multidão tirando os melões pra fora, segurando-os firmemente e gritando: "olhem aqui os meus seios, me orgulho deles!". Incrível o que a cabeça da gente pode imaginar quando estamos numa fila à espera de pagar conta...

Ela, como qualquer outra pessoa, odiava aquilo. Contudo, tinha que pagar a última prestação do microondas. As filas das CARMAS BAHIA eram sempre gigantescas. Não seria diferente se tivesse comprado nas LOJAS CALOMBO ou nas SULAFRICANAS.

Não ache você que a condição de grávida dela ajudou em alguma coisa nessa hora. Havia pelo menos 20 velhinhos e velhinhas na frente dela no caixa destinado a idosos, deficientes e gestantes. Sem contar os 10 deficientes, entre cegos, cadeirantes, entre outros tipos de pessoas com necessidades especiais. Não, não era fácil. Por isso Cynthia sentiu um grande alívio quando finalmente pagou a conta e pode sair dali. Foi na direção do elevador. Esperou alguns segundos. Entrou nele ao mesmo tempo que uma anã. Disfarçou bem a curiosidade. Sentia vontade de perguntar várias coisas para aquela pequena criatura que ali estava ao seu lado. A anã era morena clara e tinha a face parecida com a do Mick Jagger (dos Rolling Stones). Cynthia pensou nisso e esboçou um pequeno sorriso, que poderia ter se transformado em gargalhada, caso não segurasse. "Mini Jagger", pensou. O famoso riff de Satisfaction não saía mais da sua cabeça. Se cantarolasse um pedaço da letra naquele momento no elevador, provavelmente lhe custaria um processo.

O elevador descia o quinto, quarto andar, terceiro... PAFT! Parou. Oh não, pensou Cynthia.

A anã olhou pra ela assustada.

- Ai ai ai, parou!

- O que será que aconteceu? Perguntou Cynthia, mesmo sabendo que a anã não saberia responder.

- Pelo jeito acabou a luz do prédio.

- Tomara que logo volte.

Porém, não voltou. Cynthia parecia assustada, assim como a sua nova colega.

- Quantos meses?

- Nove.

- Nossa, já vai nascer então...

Logo que a anã terminou essa última frase, Cynthia sentiu algo estranho. Um líquido viscoso descia pelas suas pernas. A bolsa havia estourado. Ela logo entrou em desespero:

- Meu Deus, estourou minha bolsa?

- Como?

- Talvez tenha sido o estresse, não sei. O médico me garantiu que isso aconteceria daqui duas semanas!

- Vou tentar ligar pra alguém.

- Por favor, faça isso!

- Droga! O celular não pega.

- Caramba, estou ferrada!

- Vou tentar gritar e bater aqui na porta. OLÁ, ALGUÉM AÍ? PRECISAMOS DE AJUDA! TEM UMA MULHER GRÁVIDA AQUI! E O NENÊM VAI NASCER JÁ JÁ!

- Será que alguém ouviu?

- Impossível não ouvirem, na altura que gritei.

No entanto, ninguém apareceu.

- Ainda não ouvi resposta. Vou tentar de novo.

A anã gritou várias vezes e bateu na porta do elevador, mas não recebeu resposta.

- Meu Deus, comecei a sentir as dores. Já já vai nascer!

- Tenha calma, tenha calma!

- Estou tentando, mas nessa situação não é fácil.

- Sei lá, tente fazer aquela...Como é o nome mesmo? Ah, lembrei! Respiração cachorrinho!

- Você só pode estar brincando né?

- Já ouvi falar que funciona.

- Acho que você assiste muitos filmes!

- O que vale é a intenção.

Quarenta minutos depois...

- Tá doendo muito! Não aguento mais!

- Calma, calma!

- Você vai ter que me ajudar com isso! Disse Cynthia, deitada no chão, ofegante e suando muito.

- O que eu faço?

- Eu não sei bem...Ai! Dói demais!

- Mas me diga alguma coisa!

- Sei lá, eu vou forçar aqui. Preciso que me ajude a pu...Ai! Puxar!

- Puxar o bebê?

- Não, puxar meus pentelhos! É claro que é o bebê!

- Não precisa se estressar também!

- Puxe de leve, pois a cabecinha do nenêm é sensível.

- Tá bom!

- Vou forçar então, pois não aguento...Ahhh!

- Vai, vai, força!

- Minha Nossa Senhora, que dor!

- Aguente firme!

- Ahhhhhhh!

- Tô começando a ver a cabecinha saindo...

- Ahhhhhhhhhhhh! Aiiiiiii! Vamos bebê, me ajude!

- Isso, isso, você consegue! Tô puxando a cabecinha.

- Uuuuuuuuuuhhhhhhhhhhhhrrrrrrgh!

- Vem nenêm!

Renato chorou, como qualquer bebê normal. O cordão umbilical ainda o prendia à sua mãe. A anã o segurou nos braços e disse:

- É um menininho! Parabéns mamãe!

Cynthia não conteve a emoção ao olhar o bebezinho. A anã estendeu os braços e o entregou a Cynthia. Esta mirou aquela pequena criaturinha toda suja e se sentiu muito bem. Tinha seu filho no colo, era o que importava. Ficou ali, imóvel, observando sua cria. De olhinhos fechados, Renato descansava nos braços da genitora, curtindo os primeiros segundos do novo mundo no qual agora iria viver.

Cinco minutos depois a luz voltou e a porta do elevador se abriu. Aqueles que observaram a cena ficaram embasbacados: aquela mulher segurando o filho recém-nascido foi assunto de muitas famílias naquele dia. Inclusive de Nina, a anã.

No hospital Adrem Observou o filho por trás do vidro da sala onde ficavam os bebês que haviam acabado de nascer. Sentiu felicidade por ser pai.

A vida teria de ser diferente a partir daquele momento. Adrem tinha essa esperança, assim como Cynthia. A nova mamãe teve de se acostumar a trocar fraldas, dar de mamar, carregar o filho pra lá e pra cá. E ele chorava. Era um choro de angústia, parecia. Mas a angústia talvez fosse da própria Cynthia, a qual se sentia deslocada. Não conseguia ficar feliz por ter uma família. Renato era apenas um grãozinho de felicidade numa praia de aflição. E o sofrimento de Cynthia tinha nome: Adrem. Talvez não o amasse mais. Talvez o próprio Adrem era quem não a amava. A relação caiu na rotina, apesar da presença do picorrucho que agora fazia parte daquela casa.

E o bar era o consolo de Adrem. Ele não estava preparado para ser pai, era o que pensava. Por entre as pernas de Leda Ca passava os poucos minutos de felicidade de sua semana. Não sentia vontade de fazer amor com sua mulher, talvez por remorso, ou por sentir pena de si mesmo. Cynthia, por sua vez, tentava se distrair com o filho. Quando a criança dormia ela chorava. Sentia solidão. No escuro do quarto, ao lado do seu marido, olhava para o teto e imaginava uma vida melhor.

Renato não puxou a descarga, foi um alívio. No entanto, Adrem avistou Cynthia entrar no banheiro logo após o filho sair.

- Renato, hora de tomar banho!

- Ah mamãe!

- Venha cá moleque, anda!

- Não gosto de banho...

- Não tem que gostar, tem que fazer. Não quer ficar limpinho? Você é o Cascão da Turma da Mônica?

Ligou o chuveiro e começou a ensaboar o corpo do pequenino. Adrem gostou daquilo. Sentiu alegria por ter aquela família.

- Viu como é gostoso tomar banho?

- Não é não! Disse o menino com cara de aborrecido.

- Tem que ficar bonito no dia do seu aniversário. Logo vovô e vovó chegam!

- Aê!!! Festa!

- Gostou não é?

- Aham!

Festa de aniversário? Vou perder a festa de aniversário do meu filho? Perguntou-se Adrem.

DING DONG!

A campainha tocou. Cynthia apurou, enxugou o filho e gritou: - Já vai! Espera aqui filhote, mamãe já volta com a roupinha pra te vestir!

Foi até a porta e a abriu. Adrem escutava atentamente, curioso para saber quem era.

- Olá Leda!

- Cynthia! Quanto tempo!

- Pois é, acho que faz dois anos que não te vejo! E eu nem sabia que você tinha filho.

- Não sabia?

- Não, só soube através de minha mãe, quando a disse que lhe convidaria.

- Hummm...

- Como é o nome dele?

- Adrem Ococ Filho!

Cynthia arregalou os olhos. Adrem, mesmo sendo um cocô, sentiu um frio na espinha...

Capítulo 7 - O casamento do excremento

Minha filha vai casar! Pensou Segismundo Witthoft. E com aquele sujeitinho...

Cynthia fala com Salete: - Serei muito feliz! Adrem é um doce de pessoa.

Enquanto isso, no quarto de Adrem...

- Vai, vai, vai, não pára!

- ahhhhhhhhhhhhhh!!!

- Hummmmm!

- Nossa, demais!

- Meu noivinho preferido...

- Não me lembre, fico com remorso.

- Não estou nem aí, não é meu problema! Disse Leda Ca.

- Leda, você não presta.

- Olha quem fala!


Cynthia experimentou o vestido e disse: - Nossa Salete, não vejo a hora de subir no altar!

- Vai realizar o sonho de toda mulher, meu bem!

- E de alguns homens também...

- Verdade.

- Filha, está linda! Afirmou Gervásia Witthoft.

- Eu sei mãe! Respondeu alegremente.

- Seu pai está andando pra lá e pra cá, ansioso pelo ensaio do casamento. Ele fica resmungando umas coisas que não consigo entender...

- Deixa ele! Papai é assim mesmo.

- Eu sei Cynthia. É que você é nossa filha única, e esse momento é muito importante pra gente. Disse com lágrimas nos olhos.

- Vai dar tudo certo mãe. Fica calma.



À noite, no boteco.



- Se fudeu, vai se amarrar!

- Fica quieto Tibúrcio!

- Melhor tomar uma bem forte...A malvada é o melhor remédio pra você meu camarada!

- Desce uma daquelas Tadeu!

- É pra já.

- Quem diria hein Adrem, casará amanhã.

- Isso aconteceria uma dia. O importante é ser feliz.

- É mesmo. Eu mesmo já pensei em casar. Só que toda vez que penso, vem uma ânsia. Lembro de toda essa mulherada solta por aí.

- Estarei casado, não morto!

- Mas sei lá né cara, vai ser mais complicado...

- Cala a boca e bebe Tibúrcio!

- Hehe, tá certo.

- Você já amou alguém?

- Que papo de gay é esse?

- Pare, não fuja do assunto!

- Talvez. Uma vez conheci uma menina chamada Aurora. Gostosa da porra! Sabe essas loiras que te deixam doido? Então, era essa. Eu tava caindo na dela aos poucos. Fizemos altas loucuras. A gente se chapava e fodia hahahahah! Era assim durante toda a semana. Um dia eu cheguei na casa da vadia e entrei sem bater. Adivinha...Tava dando o rabo para um morenão de dois metros de altura!

- Putz! E o que você fez?

- Fiquei lá olhando por um tempo, fudido da cara! Era muita vergonha...Aí percebi que na cabeceira tinha um pacotinho de cocaína. Agi muito rápido. Eu tinha de me vingar daquela puta!

- Até imagino o que aconteceu...

- Liguei pra polícia e fiz denúncia de tráfico.

- Ela foi presa?

- Sim, ela e o moreno. Os "homi" não demoraram muito pra arrombar a casa e prender os dois. Foi muito engraçado. Logo que a polícia entrou na casa pra "prendê" os dois se formou uma multidão de curiosos. Eu fiquei lá no meio, rindo.

- Que história!

- Demais. E sabe o que é o melhor de tudo?

- O quê?

- O pó era meu!

- Como assim?!

- Ela me fez comprar aquilo pra gente usar antes da transa. Olha só como eu me arriscava pela danada!

- Você podia ter sido preso!

- Não fui, por isso tô aqui bebendo com você.

- Pura sorte.

- Pelo menos não vou casar...

- Já disse pra calar a boca! Desce mais uma Tadeu!

- É pra já.


No outro dia.

Cabeça pesada. Isso que dá beber Adrem. Esse é o grande dia. Domingo, folga e casamento. Olhar remelento no espelho. Chuveiro, água pra limpar toda a sujeira que sobrou do sábado.

- Vamos filha, não podemos nos atrasar!

- Tô indo mãe, só vou retocar mais um pouco a maquiagem! Disse Cynthia.

Adrem se observa na frente do espelho, agora com o paletó. Aquilo parecia não combinar com ele.

Segismundo batuca o volante, ainda ansioso. Iria perder a filhinha.

Gervásia espera encostada na porta do Gol cinza. A filha aparece. Entram no carro e somem. A Igreja seria a próxima parada.

Adrem entra no carro de João, primo de Cynthia. Carona é o que há, pensou!



- Cynthia Witthoft, aceita Adrem Ococ como seu legítimo esposo? Disse o padre.

- Não!

A mutidão faz: oooooooohhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!



No entanto, esse era apenas um pensamento de Adrem. Não conseguia parar de imaginar isso enquanto seguia na direção da Igreja. Pensava em outras coisas também que poderiam fazer o casamento virar um desastre ali mesmo, no altar.

- Se existe alguém que é contra a realização desse casamento, que fale agora ou se cale para sempre!

Leda Ca se levanta, seguida de uma multidão de mulheres lindas, todas com olhos de ressaca. Gritam em alto e bom som:

- NÓS!!!!

-Pára de imaginar isso, pensou, vai dar tudo certo!

Chegou a imaginar até um avião caindo na Igreja, um ataque de extra-terrestres, um enchente, terremoto, erupção vulcânica. - Vai dar tudo certo, repetiu.


Dentro da Igreja muita gente chorando. Segismundo não se conformava. Gervásia estava aos prantos. Leda Ca acompanhava lá do fundo, vestida com um vermelho ferrari provocante. Tibúrcio parecia invejar tanta atenção dada a Adrem. Salete somente sorria, apesar de não confiar muito no noivo.

- Eu vos declaro marido e mulher! Pode beijar a noiva.

Beijaram-se como se estivessem na corte de Luís XIV.

A festa correu bem. Salete saiu antes do previsto, pois quebrou o salto. Tibúrcio acabou bêbado e bateu o carro no poste de leve, mas o suficiente pra ferrar com o motor. Dormiu ali mesmo. Segismundo e Gervásia dançaram o quanto puderam e ficaram com sono lá por 2 da manhã. Se fartaram com o bolo. Leda Ca foi parar no motel com um sujeito com cara de psicopata que conheceu na festa. Ela sentia atração pelos tipos mais esquisitos. Adrem a Cynthia dançaram muito, curtiram, se deliciaram em beijos e alegria. A noite de núpcias foi num hotel bem chique do centro da cidade.

- Venha aqui minha linda, gostosa, cheirosa.

- Safadão!

- Bem que você gosta disso.

- Por isso estou com você.


A noite foi intensa.

O casamento ia bem no começo. Adrem continuou trabalhando no limpa fossa. Cynthia ficava cuidando de casa. Tinha vontade de fazer faculdade, mas precisava de dinheiro pra pagar cursinho. Poderia procurar emprego, mas Adrem não gostava da idéia. Talvez quisesse manter a esposa submissa.

- Amor, eu tenho vontade de trabalhar...

- Já falamos disso Cynthia!

- Ah, me sinto presa aqui.

- Isso logo passa...

- É porque não é com você!

Logo Cynthia passou a não suportar mais o cheiro do marido. Aquele aroma de fezes era enjoativo. Tomava banhos longos, pois sentia como se ela mesma estivesse suja. Adrem também começou a ver muitos defeitos em Cynthia. Achava que ela era muito criança ainda, e que falava demais. Tinha manias muitos esquisitas pra ele, como a de deixar copos com água espalhados pela casa. Aquilo era irritante. Ela enchia o copo, tomava um pouco e largava em qualquer lugar. Fazia isso com frequência. Também não acostumou com os cabelos no ralo. Calcinhas penduradas nos cabides. Sangue no fundo do vaso (custava dar a descarga mais uma vez? pensava ele). Ele queria ver o futebol, ela novela. Queria comer feijão e arroz, ela macarrão. E a comida que Cynthia fazia não era assim tão boa para Adrem. O casamento estava indo para o ralo, assim como os cabelos da garota.

O jeito era curtir o Chiqueirus Bar nos sábados, sozinho, escondido. O Boteco também era uma coisa que deixava nosso amigo um pouco mais feliz. Pelo menos lá esquecia um pouco o trabalho. Se encontrava frequentemente com Leda Ca. Esta começou a transar com Adrem por pura compaixão, sabendo que ele se sentia preso pelo casamento. O Bufa Motel agradecia por aqueles 60 reais que faturava todo domingo à noite.

No segundo ano de casamento Adrem passou a exagerar na bebida. Chegava e ia direto pra cama. Ou passava horas no banheiro botando pra fora tudo que havia ingerido e muito mais. Quando estava sozinha, Cynthia chorava. Não queria mais aquela vida. Era jovem, bonita, inteligente. Ligava pra Salete contando tudo que acontecia. Salete pedia para que ela deixasse Adrem, pois ele não valia o esforço do casamento. Ache um homem decente pra você! Dizia.

O casamento chegou numa fase em que Adrem só procurava Cynthia para fazer sexo. Ela sentia nojo daquele cheiro dele, mas cedia, não se sabe o porquê. Ele terminava rapidinho o serviço e se virava para o outro lado. Roncava e soltava gases. Cynthia por várias vezes saía do quarto e ia dormir no sofá da sala. Não estava aguentando mais aquela situação.

Numa manhã qualquer sentiu tontura. Vomitou.

- Estou grávida!

- Você não estava tomando a pílula?

- Devo ter esquecido algum dia! Não me culpe, eu disse que era melhor você usar camisinha!

- Fazer o quê?! Agora o jeito é a gente aceitar isso.

- É. Pelo menos é um filho, não câncer!

- Sou muito jovem pra ser pai.


Ser pai. Ser pai. Aquela frase chicoteava o cérebro de Adrem. Ele era pai. Não podia acabar afogado no esgoto, trucidado por ratos. Não podia morrer, porque ele tinha um filho pra criar.

Renato, seu filho, apareceu no banheiro. Enquanto o menino fazia xixi em cima do pai, Adrem começou a relembrar o nascimento do filho. Aquele menino era tão importante para ele. Se fosse pra alguém puxar a descarga e acabar com sua vida, que essa pessoa fosse Renato.

Capítulo 6 - Chiqueirus bar

Tinha acabado o colégio. 18 anos. Nada para fazer, nada para assistir na televisão. Aonde estavam seus amigos? Deviam estar por aí, se divertindo. Vê o que tem na geladeira. Hummm, vou tomar um copo de leite! Pensou. Encheu o copo, tomou num só gole. Deitou na cama. Aquele dia se repetiu eternamente. Você precisa sair menina! Disse sua mãe. Era verdade, Cynthia precisava sair. Tinha que voltar a ter aquela comum vontade de viver; necessitava de diversão. Emprego? Não, ela não tinha vontade de ter um chefe. Quem sabe vender cosméticos por aí. Ah, mas aí precisaria conseguir um clientela, e isso dá muito trabalho.

- Acho que vou ligar para a Salete (sua única amiga) pensou.

Pegou o telefone, discou.

- Alô!
- Olá Sa! Como está?
- Cy!!! Estou bem, e você?
- Estou bem também! Só que muito entediada!
- Vamos dar um jeito nisso.
- Como?
- Que tal a gente sair no sábado?
- Por mim tudo bem.
- Então tá. Vai ser muito legal te rever!
- É, já faz o que, seis meses?
- Mais ou menos...
- A gente tem que se ver.
- Sim!
- E para onde nós vamos?
- Tem um barzinho bem legal não muito longe da minha casa. Chiqueirus Bar.
- Que nome horrível!
- Ah, mas o nome engana! É muito bom, você vai ver!
- Então tá bom, confio em você amiga.
- Eu pego um táxi e passo aí na sua casa lá pelas sete no sábado, tudo bem?
- Tudo!
- Então está combinado!
- Está! Até mais Sa!
- Beijo! Tchau!


Sabadão, hora de sair, pensou. O expediente foi puxado. Ele teve que limpar 3 fossas. O banho teve de ser demorado pra tirar aquele cheiro. Estava ali, limpinho agora. Roupa, roupa, roupa. Isso! Ele adorava se vestir de esporte finol. Iria sair de fininho para seu pai não notar. Ele não gostaria muito de saber que Adrem gastava o suado dinheiro com balada, bebida. Desodorante "Belzebu", aquele que deixa cheiroso até urubu, como dizia a propaganda. Passou nas axilas.

Tinha que pegar o ônibus logo, senão não chegaria a tempo de pegar o coquetel grátis que era servido para aqueles que chegassem antes das sete e meia no Chiqueirus Bar. Abriu a porta, foi bem devagar em direção à saída. Isso, liberdade! Agora teria de andar mais rápido. Jà estava escurecendo. Só ele no ponto. Assoviou a música do caminhão de lixo (Beethoven). Avistou virando a esquina: Higienópolis. Era esse mesmo que tinha de pegar. Acenou para o ônibus parar. Vamos que vamos! Pensou. Pagou o dinheiro e passou a roleta de maneira esnobe, com olhos de magnata. Sentou no fundo perto dos meninos calçudos que estavam com um mp4 falsificado tocando Hey Ya do Outcast. Como esses tipos irritavam Adrem. Tudo bem, pensou, logo chego. Uma velhinha fedida entrou no ônibus. De longe ele pensou: Não, que ela não venha sentar do meu lado. E foi o que aconteceu. A velhinha devia ter feito nas calças, não era possível! E ainda por cima estava cheia de sacolas. Adrem pensou por um momento no porquê de as velhinhas viverem cheias de sacolas de plástico. Devia existir uma cidade só com velhinhas com sacolas de plástico. Teve um dia em que ele contou no ônibus e havia dez dessas velhinhas. Inacreditável! Ela sentou do lado dele e Adrem lembrou: Prefiro a fossa. Ainda bem que cheguei, pensou. Apertou o botão para o ônibus parar. Avistou a placa: Chiqueirus Bar. É hoje! disse pra ele mesmo.

- Olá Ranho!
- Oi Adrem!
- Como está a casa?
- Hoje vai lotar, tem show do BostaXZero!
- Olha, legal! Vou curtir!
- Como anda o trabalho?
- Sempre a mesma merda! Fossa pra limpar todo o dia. Tenho que ganhar a vida, fazer o quê?
- Quando abrir vaga de segurança aqui no Chiqueirus eu te dou um toque.
- Beleza Ranho! Você sempre foi um amigo fiel.
- Que isso Adrem, eu te devo várias.
- Que isso, faço tudo pelos amigos.
- Se não fosse você, não tinha casado com a Perebinha.
- E como ela está?
- Ah, meio chatinha como sempre, mas eu a amo, você sabe.
- Isso aí! Mas não dê mole pra ela não. Coloque a Perebinha nos eixos!
- Tá certo!
- Vou entrar então cara.
- Toma a fichinha. A entrada pra você é de graça!
- Valeu mais uma vez Ranho!
- Que isso, divirta-se!

Adrem entrou. Logo pegou o coquetel grátis. Curtiu um pouco o som emo da BostaXZero. Achou o vocalista com jeito de homossexual, mas não tinha nada contra. Olhou para os lados, só gatinhas. Tinha que investir em alguma. Chegou numa loirinha:

- Oi, tudo bem?
- Tudo.
- Você vem sempre aqui?
- Porra cara, essa é velha já.
- E daí?
- Daí que é tosco! Tchau!

Poxa, logo no começo da balada já um fora desses Adrem?! O jeito é pegar mais um coquetel. Olha, uma ruiva baixinha! Nosso amigo vai até lá:

- Olá!
- Sai fora!

Nossa, hoje está difícil, disse em voz baixa. Outro coquetel. BostaXZero cantava Caguei em Você, um grande sucesso que tocou no Domingão do Cagão. O tempo foi passando, Adrem foi tomando mais e mais. Como ele gostava de balada. Beber era o melhor remédio para esses foras que ele tomava de vez em quando, nos momentos em que a inspiração necessária pra pegar a mulherada não aparecia. Ele ficou tão bêbado que chegou a chorar quando a banda tocou Entre Rabões e Peitões. Estava doido, doido. Girava pra lá e pra cá com o copo de cerveja na mão. De repente o copo voou e atingiu alguém.

- Filho da puta!
- Desculpa moça!
- Só podia ser você mesmo! O cara do limpa fossa!
- É você? Oi, prazer.
- Prazer nada, olha, tô toda suja!
- Eu não...É...
- E ainda por cima está bêbado!
- É que...Que...
- Tô indo embora.
- Vamos embora mesmo Cy! Disse Salete.
- Pera...É que.

Ela saiu do Chiqueirus Bar.
Adrem foi atrás cambaleando. Chegou perto das duas:
- Moça...
- Eu já disse que tô indo embora seu, seu, seu bêbado!

Ele encosta no ombro dela e:
- Você é linda!

PAFT! Um tapa na cara.

Adrem chegou a cair no chão e bater a cabeça. Um tapa era suficiente para fazê-lo cair, sem dúvida!

- Cy, acho que você matou ele!
- Será?
- Ai ai ai, você tá fudida! Amanhã vai aparecer no noticiário.
- Para Sá!
- É verdade! Tinha várias testemunhas ali dentro!
- E o que a gente faz?
- Sei lá!
- Dê alguma idéia!
- Já sei, vamos levá-lo lá pra casa. Se ele morrer, a gente enterra.
- Essa é sua grande idéia?
- Ou isso, ou prisão, o que você prefere assassina?
- Ai meu Deus!
- Vamos chamar um táxi.
- Sim, vou ligar.
- Ok.

Ela liga para o táxi.

- Pronto.
- Agora vamos tentar levantá-lo.
- Será que eu consigo?
- Vamos tentar!
- Ok!
- Viu, ele nem é assim tão pesado.
- Tá respirando?
- Ainda está. Mas nunca se sabe, porque ele pode ter uma morte súbita.
- Pára de falar essas coisas!
- Olha ali o táxi, que rápido!

Elas entram no carro.

- Para onde meninas?
- Higienópolis mesmo, aqui pertinho, rua do esgoto número 51.
- Tudo bem!

Chegaram rapidamente na casa de Salete. Pagaram o taxista. Entraram. Adrem ainda estava desacordado.

- Vamos meter esse filho da puta no chuveiro gelado.
- Isso não pode matá-lo mais rápido?
- Sei lá, não sou médica!
- Você não tem coração Sa!
- Cala a boca e me ajuda a levá-lo.
- Tá.

Seguraram Adrem embaixo do chuveiro. Adrem acorda e grita:

- Ai, que frio da porra!
- Viu só bebum, isso que dá encher a cara! Diz Salete.
- Você merece isso. Fala Cynthia sorrindo, mais tranquila por Adrem aparentar estar bem.
- Agora termine o banho sozinho. Vou pegar as roupas que meu ex-namorado deixou aqui em casa e te emprestar. Você vai ter que passar a noite aqui.
- Tá bom! Ele fala, quase querendo chorar.

Adrem terminou o banho. Se enxugou e vestiu as roupas do ex-namorado de Salete. Quando saiu do banheiro, viu que o sofá já estava arrumado para ele se deitar. Pelo menos não trabalho no domingo, pensou.

Amanheceu o dia. O galo cantou três vezes. Adrem acordou e viu as meninas preparando o café.

- Bom dia!
- Bom dia! responderam as duas simultaneamente.
- Poxa, queria muito me desculpar...
- Que isso, essas coisas acontecem. Respondeu Cynthia.
- E você nos deu um susto e tanto! Disse Salete.
- Eu sei. Acharam que eu tinha morrido, não?
- Sim, e iríamos enterrá-lo, esconder seu corpo, caso fosse verdade! afirmou a amiga de Cynthia.
- Como você é cruel...
- Ela é assim mesmo, não ligue. Cynthia respondeu, sorrindo.
- Eu percebi.
- Qual o seu nome mesmo? Perguntou Cynthia.
- Adrem, Adrem Ococ.
- O meu é Cynthia!
- E o meu é Salete.
- Bonitos nomes!
- Obrigada! Responderam juntas, mais uma vez.
- Meninas, eu tenho que ir. Como posso conversar com você novamente?
- Sei lá, será que você merece? Brincou Salete.
- Me dê uma chance!
- Tudo bem. Cynthia, passe o seu número pra ele!
- Por que eu?
- Ué, porque vocês já se conheceram antes, não é!?
- Eita! Tudo bem. Espera, vou anotar.
- Isso!
- Pronto! Toma. E vê se dá próxima vez que a gente se ver você seja menos desastrado!
- Tá bom! Prometo que nunca mais derramarei nada em você!
- Promessa é dívida!
- Cumprirei! Tchau!
- Tchau! Responderam.

Os dias se passaram. Adrem louco pra entrar em contato com Cynthia. Ela tinha alguma coisa que lhe chamava atenção. Talvez estivesse apaixonado pelo jeitinho da menina. Seria a primeira vez. Ele era muito acostumado com casos rápidos, transas ligeiras, até mesmo putas. Cynthia tinha um ar angelical, olhos castanhos claros, cabelos lisos, pele levemente morena, estatura mediana e muito, muito feminina.

- Alô!
- Oi, aqui é o Adrem.
- Você? Vai querer me sujar de novo?
- Engraçadinha...
- Tudo bem?
- Tudo!
- Estava pensando aqui...Er...Você tá a fim de dar uma volta comigo no parque?
- Hoje?
- Sim, hoje, porque estou de folga.
- Hummm...Deixa eu ver. Pode ser. Que horas?
- A gente pode se encontrar na Praça da Gazela, aquela do chafariz lá por 3 da tarde. O que acha?
- Por mim tudo bem.
- Então combinado!
- Tá bom.


E eles se encontraram. Olha leitor, você pode estar se perguntando: mas Adrem não era um merda? Sim, ele era. Acontece que vocês precisam concordar que um homem apaixonado fica diferente. Isso não fugia à regra com ele. Fez de tudo pra conquistar Cynthia. Pagou jantar pra ela; elogiou seus olhos; elogiou seus cabelos; elogiou sua roupa; disse que era inteligente; andou de mãos dadas com ela, e assim por diante. Chegou até a mandar flores! Adrem estava se superando! Não demorou um mês para darem o primeiro beijo. Cynthia tinha caído na teia dele, definitivamente. Depois de verem um filme com um nome muito estranho no cinema - Entre Quatro Vaginas - Adrem a pediu em namoro. Ela aceitou com um sorriso no rosto. Se beijaram novamente. O mundo foi deles naquele instante.



A água tinha voltado. Nosso benemérito cocô estava preocupado. A qualquer momento Cynthia ou até mesmo o seu filho apareceriam para puxar a descarga. Seria com certeza o fim de Adrem. Ele nunca teve tanto medo do esgoto. Meu casamento, pensou. Sim, ele começou a se lembrar do seu casamento, e como aquilo que parecia bom a princípio começou a virar uma merda...

Capítulo 5 - Sangue e cocô

Cynthia chegou correndo em casa. Não devia ter ido para a aula com aquela calça branca, ela sabia! Logo na aula de química foi acontecer aquilo!? Oh não! Sim leitor, o absorvente vazou. Ela sentiu o líquido escorrer por entre as pernas de maneira brutal. Paralizou. Aquilo não podia estar acontecendo! O professor apenas olhou para a moça assustado. O líquido descia e já chegava no chão. Pingava. Esta é Cynthia Witthoft aos seus 17 anos. Aquela que futuramente se tornaria esposa do nosso camarada Adrem.
A menina corou. A turma toda começou a gritar como se fossem loucos. Aquilo parecia uma festa. Cynthia quis morrer. Todos riam, riam e riam. As risadas entravam nos ouvidos, atingiam o cérebro e davam choques angustiantes. Como sentava na carteira da frente, não sabia que todos a estavam olhando naquela situação humilhante. Não tinha coragem de olhar para trás para comprovar. Apenas via na expressão do professor o resultado do que acontecera. Sim, seria bom ter comprado um absorvente de qualidade, não o da promoção! Vivendo e aprendendo.
Levantou rapidamente e correu, correu muito. Abandonou a todos na sala, no colégio. Ela tinha que fugir da vergonha. Era uma corrida de 100 metros rasos. Não! 4 mil metros rasos até sua casa! Corra Cynthia, corra! Faça isso em prol da sua dignidade. Seu corpo esquentou e o suor tomou conta de sua face. Não ligava mais para o sangue que escorria entre as pernas. Enxergou o portão de sua casa. Quando chegasse lá estaria a salvo. Mal entrou e recebeu um jato de merda na cara!

- Filho da puta!
- Desculpe-me moça! Eu não sabia que alguém estava atrás de mim. A máquina de sugar excrementos falhou.
- Olha o que você fez!
- Não posso fazer nada, estava aqui trabalhando sossegadamente, limpando a fossa.
- Você deveria tomar mais cuidado sabia!?
- Pelo que vejo, você também.
- Isso não tem nada a ver com você, foi só um acidente muito comum que pode acontecer com qualquer garota.
- Pois digo o mesmo quanto a mim. Nunca fique atrás de uma máquina de sugar excrementos.
- Quem chamou a limpa fossa?
- Seu pai. Ele nos ligou e pediu que viéssemos com urgência.
- Não sabia que nossa fossa estava entupida...
- Isso é muito normal. As pessoas geralmente esquecem que isso acontece. Quando vêem, já é tarde.
- Sei.
- Você me perdoa?
- Claro! Desde que você me diga que eu posso tomar banho.
- Humm... Vai ter que esperar mais quinze minutos, porque fechamos o registro de água para fazer o serviço.
- Então quer dizer que terei de ficar suja de merda e sangue por mais todo esse tempo?!
- Vou agilizar aqui para que você possa utilizar o banheiro em cinco minutos então.
- Tá bom. Não aguento esse cheiro! Preciso me sentir limpa novamente.

Cinco minutos depois.

- Pronto moça!
- Ufa! Vou lá então.
- Tudo bem. Qual o seu nome?
- Cynthia.
- Prazer Cynthia. Meu nome é Adrem. Adrem Ococ. Se quiser, pode me chamar de Ad.
- Ok Ad! Até mais!
- Até!


Adrem escutou um barulhinho contínuo vindo de algum lugar da parede. Sentia um pequeno tremor. Oh não, a água está voltando! Pensou. Sim, a água estava voltando. Seriam os últimos momentos da existência de nosso querido cocô?

Cynthia puxaria a descarga logo logo, sem dúvida. Ao mesmo tempo, as lembranças não paravam de surgir na memória de nosso amigo. Sentiu-se orgulhoso em recordar como conquistou o coração daquela jovem.

Capítulo 4 - Um Bosta Namorador

Adrem lembrou de quando era adolescente. Não era bonito, nem atraente. Não gostava de estudar, nem de ler, nem de jogar futebol. Nunca foi muito bom em fazer amigos também. Preferia não fazer nada. Havia só uma coisa que realmente apreciava: meninas. Só que era extremamente tímido, o que dificultava as coisas. Sua primeira namorada Adrem teve somente com 17 anos. A conheceu de uma maneira meio inusitada. Ele passeava tranquilamente de bicicleta quando perdeu o freio inexplicavelmente e acabou atingindo o tornozelo da garota. Ela não ficou tão mal assim, só teve que ficar com um gesso durante dois meses. Adrem aproveitou para conhecer melhor a menina nesse tempo. Passava na casa dela diariamente para ver se estava tudo bem. Não demorou muito para os dois ficarem amigos; foram ficando cada vez mais próximos e a amizade cada vez mais colorida.
- O que você tem aqui na boca?
- Aonde Adrem?
- Aqui ó!
- Aonde?!!
E Adrem lascou um beijo na menina! É meu caro leitor, nosso amigo não era assim um merda completo na adolescência, pois em alguns momentos mostrava um pouco de atitude.
- Seu bobão, eu caí direitinho nessa!
- Mas bem que gostou! haha!
- É, mas eu poderia ter lhe dado uns tapas.
- Eu iria gostar...

E assim começou a vida amorosa de Adrem. Depois dessa namorada, outras 30 vieram em poucos anos. O garoto que não gostava de fazer nada havia achado sua verdadeira vocação: conquistador. Todavia, essa função não combinava muito com o papel social de um merda.

O problema era que Adrem avacalhava demais com as meninas. Das mais de 30 namoradas que arranjou dos 18 aos 25 anos, grande parte abandonou após 1 mês de namoro. Ele fazia promessas de amor eterno, e, por mais que isso pareça um clichê gigantesco, levava as meninas para a cama. Poucos dias depois de conseguir o que queria, as abandonava sem dó nem piedade. Não era uma total crueldade consciente isso, mas instinto inevitável de uma verdadeira bosta humana.O pior é que em alguns momentos nem era preciso Adrem fazer muito esforço para conseguir mais meninas: era só ir numa festa, passear no parque, ir na igreja, esperar o ônibus; daí só puxar um papo e pronto! E como nosso amigo merda não era tão culto, os papos eram sempre os mesmos. Isso era de menos, pois todas caíam na sua rede como se fossem peixinhas bobinhas de aquário. No final, só restavam peixinhas tristinhas e desiludidas.
Até seus 35 anos de idade, Adrem teve muitas, mas muitas namoradas; e também muitos casos perdidos por aí. Daria para encher um rio com tantas lágrimas de mocinhas arrependidas, as quais antes de conhecer o cafajeste eram tão puras quanto anjos de luz.
Não disse um detalhe importante: nosso amigo conheceu o prazer da bebida já aos 20 anos. Com essa idade percebeu que também tinha a vocação para bêbado. A bebida o estimulava nos encontros e lhe dava coragem nas conquistas, visto que aquela timidez da adolescência ainda teimava em aparecer nos momentos mais importantes. O álcool, portanto, estava colocado num pedestal. Era seu companheiro fiel dos momentos solitários.Uma ida ao bar, uma dose, e a energia parecia que voltava ao rapaz. Aquilo o ajudava a mentir descaradamente para as mocinhas. Com a chegada dos 20 e poucos anos, suas idas ao bar em busca de cachaça e cerveja se tornaram mais frequentes. Não ia nesses lugares buscar sociabilidade, mas a própria bebida. Geralmente chegava, pedia uma dose, tomava num gole só e pagava com algumas moedinhas. Se não estivesse satisfeito, pedia outra dose, e mais outra, e assim por diante. Se alguém puxasse papo ele não respondia, a não ser que fosse uma mulher. Sempre comprava balas de hortelã para esconder o bafo das namoradas.
Falamos em moedinhas. Como Adrem as conseguia? aos 18 anos, após ser dispensado do serviço militar por excesso de contingente, e após ter terminado o ensino médio - o que fez "empurrando com a barriga"- estava preparado para trabalhar. Entretanto, não tinha vocação para nenhum emprego, e nem tinha vontade de trabalhar.
- Vá arranjar trabalho, ou então rua! Disse uma vez o pai de Adrem, o qual havia se aposentado com 65 anos de idade como motorista de uma empresa de transporte.O jeito então, após essa pressão paterna, era arranjar algum emprego, ou fazer alguma coisa que gerasse dinheiro.
Procurou em vários lugares, mas em todos se exigia experiência, coisa que Adrem não tinha. Os anúncios nos jornais eram sempre os mesmos; estava realmente difícil arranjar algo. Um dia conseguiu uma entrevista para trabalhar num mercado, mas foi logo dispensado após relatar não ter conhecimento em informática. Fez um concurso público na prefeitura, todavia não conseguiu atingir a média geral.
- Mas é um vagabundo mesmo! Se não conseguir emprego até a semana que vem pode arrumar as malas e sair de casa! Disse seu pai, lhe pressionando mais e mais, enquanto sua mãe chorava e ficava paralizada diante da rigidez de seu marido com relação ao filho.
- Calma, o rapaz está procurando.
- Está nada, fica aí o dia inteiro deitado, esse burro! Se pelo menos estivesse interessado em estudar nós poderíamos pagar um cursinho, mas é um vadio! Tem que se ferrar mesmo, burro do jeito que é! Gritava o pai, esbaforido.Pressionado, Adrem aceitaria qualquer coisa para fazer. Tinha uma semana para isso, senão provavelmente iria parar debaixo da ponte com o resto dos mendigos.

Um dia estava no boteco tomando sua dose diária quando sentiu um cheio de merda. Aquilo estava realmente muito forte, pois dificilmente algo conseguia chamar tanta atenção dele nos momentos em que se concentrava na bebida. O cheiro vinha da direção de um homem, o qual se sentou ao lado de nosso companheiro. O ambiente se infestou.
- Dá aquela de sempre!
- Opa, lá vai! Disse o dono do bar.

O homem começou a papear com o sujeito que lhe serviu a bebida no balcão.
- Como está o trabalho?
- A mesma coisa de sempre. Época de campanha eleitoral você sabe, o serviço triplica. Só dá candidato nos contratando pra ganhar votos.
- Hummm...Que coisa. E está muito puxado o serviço?
- Agora está. Um amigo meu, o Fezinha, morreu na semana passada. Você não soube?- Não o conheço!
- Era um grande camarada. A gente trabalhava junto fazia 8 anos. Semana passada foi atropelado por um caminhão.
- Nossa!
- Ficou todo estraçalhado. No velório, o caixão teve que ficar fechado, pois só havia pedaços dele lá dentro. Horrível!
- Putz, que merda!
- Agora a gente está precisando de um substituto lá na empresa. Se souber de alguém que queira trabalhar lá, avise que é só dar uma passada ali na Rua do Rosário, número 32. Fica no bairro Boston.
- Tudo bem, eu aviso sim.
- Valeu! Eu vou então, pois a patroa deve ter feito a janta. Até mais!
- Até!
Adrem ouviu toda a conversa. No mesmo dia já estava no suposto lugar. Apertou a campainha e uma velhinha o atendeu. Disse então que estava interessado no emprego.
- Então pode começar amanhã! Disse a senhora.
- É aqui mesmo?
- Sim. Chegue às 5 da manhã! Não se atrase! - Ok.

Foi difícil acordar cedo, pois acostumara a dormir até 11 da manhã. Levantou, deu uma arrumada no cabelo, lavou o rosto e saiu de bicicleta. Chegou quando faltava 5 minutos para as 6. A mesma velhinha estava lá.
- Esse é o seu uniforme, vista-o. O banheiro é aqui do lado. Essa roupa é responsabilidade toda sua, portanto cuide dela.
Era um macacão verde-escuro, nada atraente.
- Logo vai chegar o caminhão. Aguarde!

Aos poucos foram chegando outros sujeitos vestidos com aquela roupa. Eles cumprimentavam a velhinha e ficavam próximos à porta, aguardando. Logo chegou um caminhão também verde-escuro. O motorista desceu, foi até a parte de trás de caminhão e abriu as portas. Lá dentro Adrem conseguiu perceber que havia enxadas, pás, cortadeiras, entre outros tipos de ferramentas.
- Vamos pessoal! Gritou o motorista. Todos começaram a entrar no caminhão, dividindo espaço com as ferramentas. Adrem ficou só observando, quando a velhinha o avisou:- Vamos rapaz, vai trabalhar ou não?!

Ao caminhar para se unir aos outros trabalhadores, Adrem leu o que estava escrito na lateral do veículo: Rodriguez Limpa Fossas. O espanto de nosso companheiro foi imenso. Ia em frente ou não? Ao mesmo tempo em que via os trabalhadores lhe chamarem, já irritados pela sua demora em adentrar no veículo, lembrou da expressão irritada do pai quando o pressionou para conseguir um emprego. Não tinha escolha, pois ou enfrentava a fossa ou teria de sair de casa.
Adrem entrou no caminhão. O veículo acelerou e sumiu ao virar a esquina. A velhinha fechou a porta do estabelecimento não sem antes dar um leve sorriso.

Sua esposa puxou com força mas nada aconteceu. A água havia acabado, por sorte do nosso querido toletão. Adrem nunca pensou que poderia ficar feliz com a já tão corriqueira falta de água. Teria mais alguns momentos de existência. Sua esposa parecia não se conformar; ficou ainda mais irritada com aquilo. De repente tudo ficou escuro. Ela havia fechado a tampa da privada. Na escuridão, nosso amigo começou a lembrar de como havia conhecido sua mulher...

Capítulo 3 - Um Merda de Criança

O medo do desconhecido o fez relembrar de sua trajetória de vida. Desde muito cedo, quando ainda era um bebê, as pessoas em volta de Adrem sabiam que ele se tornaria um merda. As suspeitas começaram quando a pequena criança feria a própria mãe na sagrada hora de mamar, pois a mordia como se não ligasse para a progenitora. Os peitos dela sangravam e o pequerrucho nem ligava. Parecia um minivampiro.
Aos dois anos não sabia brincar normalmente - como é de praxe quando pensamos numa simples criança - mas gostava de estragar os brinquedos. Arrancava as pernas, cabeças, braços e demais membros dos homenzinhos do Comandos em Ação; os enterrava na areia e lá os esquecia; atirava carrinhos de fórmula 1 na parede, arrancava as rodas. Adrem não era normal, pois aquilo lhe dava um prazer absoluto.
Desde muito pequeno ele já era um cagão, querido leitor! O problema é que habituou-se a fazer as necessidades na calça até pelo menos os 10 anos de idade. A mãe dele sofria, pois naquele tempo não havia ainda máquina de lavar roupa! Imagine esfregar tudo aquilo com a mão!Seus hábitos alimentares causavam repulsão a qualquer um. Molhava o pão no refrigerante e comia enquanto mastigava chicletes. Se lambuzava com feijão e arroz, pois apertava os alimentos bem até sair aquele líquido gosmento; Era comum ficar ranhento e chupar aquilo que escorria, misturando tudo na boca, como se fosse algo natural. Comer tatu do nariz era uma coisa cotidiana para o menino, além de sempre experimentar a terra do quintal, quando lá brincava.
Nosso amiguinho não tinha dó dos pequenos animais e insetos. Uma de suas diversões preferidas era pegar emprestado uma panela de sua mãe para fazer comidinha de formiga. Só que não era comida para elas, mas feita com elas. Ou seja, fazia uma fogueira no quintal e deixava a panela lá esquentando; procurava um formigueiro, e quando o encontrava fazia o transporte das vítimas até a panela. Isso podia ser feito com qualquer pedaço de madeira. Colocava algumas folhas para temperar e mexia um pouco para misturar tudo. Seu maior prazer nisso era ver as pequeninas se debatendo na fervura.Quando não dava uma de cozinheiro, Adrem gostava de se sentir um gigante e atacar com todas as armas um formigueiro. Geralmente tinha satisfação em colocar outros bichinhos no meio da fortaleza, só pra ver como as formigas reagiriam. Minhocas eram os invasores preferidos do menino. Adorava vê-las se remexendo enquanto milhares de formigas as atacavam. Após a morte de uma minhoca, ela geralmente servia de alimento a todo o formigueiro. Aranhas também eram invasores legais de se ver, mas era perigoso levar uma picada na hora de catá-las; o mais legal era quando atiravam teias na direção daqueles soldados defensores. Formiguinhas de espécies diferentes também eram usadas nessa brincadeira de Adrem, porém morriam muito rapidamente. Quando aquele tipo de batalha enchia o saco, o garoto jogava aquela panela de água quente no reino só pra mostrar aos insetos sua superioridade.
Uma criança normal gosta de fazer bolinhas de sabão. Adrem gostava de inserir a essa prática o envolvimento que ele próprio tinha com os bichinhos. Levava os pequeninos até a calçada e fazia bolinhas de sabão ao redor deles.Por alguns segundos aquilo ficava como se fosse um campo de força ao redor dos bichinhos. Novamente, as formigas eram as vítimas preferidas de Adrem nessa brincadeira. Afogá-las na espuma também era uma das diversões do pestinha. Isso quando não fazia batalhas individuais entre essas e outros insetos, principalmente as já mencionadas aranhas. Se nosso camaradinha crescesse uma pessoa mais inteligente, teria inventado o Pokémon, pois era um pioneiro nessas idéias.
Portanto, Adrem desde cedo se tornara um merda.

A mão de sua mulher alcançara a cordinha. Começou a puxá-la. A irritação a fez puxar brucamente. Adrem teve outros flashbacks...

Capítulo 2 - Manhê, Pronto!

Era seu filho de 3 anos. Demorou para conseguir abrir a porta, mas o fez. Aproximou-se do vaso, teve dificuldades para arriar as calças. Esforçou-se para conseguir subir. Logo ajeitou a bundinha no buraco da privada. Adrem só podia observar, temendo o que viria em seguida. Já limpara a bunda do próprio filho, portanto não era nenhuma novidade, mas aquela situação propriamente dita era nova. Nosso amigo só conseguia enxergar porque havia uma fresta, pois o pequenino bumbum não conseguira tampar totalmente o buraco da privada. O filho se balançava, parece que brincando, enquanto esperava seu próprio organismo trabalhar. Nem fez muita força para começar a expelir um cocozinho amarelo, minúsculo. Quase não valia a pena ter se submetido a ir no banheiro para fazer aquilo. Adrem Ococ apenas esperava e olhava, sem ter a esperança de conseguir se movimentar. Talvez uma pequena expectativa de acordar do provável sonho ainda existisse, talvez não. A única coisa que realmente o incomodava, além do cheiro que antes já era insuportável e que havia ficado ainda mais, era a idéia de que teria de disputar espaço com fezes de outra pessoa; tudo bem, essa outra pessoa era o seu próprio filho, e ele mesmo era, naquele momento, um merda, literalmente, mas quem teria coragem de praticamente beijar o cocô alheio, mesmo que fosse familiar?
Antes mesmo que aquele ser amarelinho saísse do corpo do menino, algo meio inesperado aconteceu: Adrem não esperava levar uma mijada do próprio filho! Em algum momento da vida já havia feito esse negócio de mijar e cagar ao mesmo tempo, pois parece que o chamado "número 2" ativa também o "número 1" de uma forma meio inexplicável. Entretanto, aquilo também acontecia com crianças, não só com os adultos, preguiçosos e envoltos pelo capitalismo de uma forma tão cabal que até dentro do banheiro necessitam de algum modo de economizar tempo? É, a sociedade só podia estar perdida!
Nosso cocô-mor sentiu aquele líquido meio esbranquiçado atingir toda a superfície de sua estrutura pastosa e esquentá-la. Se tivesse uma boca poderia ter vomitado, pois o sentimento de asco o tomara. Mal pôde se recuperar daquela mijada e o cocô filial o atingiu logo em seguida, para completar a angústia de nosso companheiro.Chegou a se arrepender por ter pedido à mulher para fazer um risoto no almoço do dia anterior. Lembrou vagamente daquela refeição e seu sofrimento foi ainda maior.
Seu filho deu um pulinho para sair da patente e não precisou pensar muito para dar aquele famoso gritinho:

- Manhê, pronto!!!
- Já vou! Gritou a mãe.

A mulher foi até o banheiro, puxou o papel higiênico de forma habilidosa, virou a bundinha do menino e a limpou; repetiu o gesto mais algumas vezes para garantir a limpeza total. Puxou a cuequinha dele, subiu a calça e o liberou. O menino saiu como um raio do banheiro, louco para voltar a brincar com seus soldadinhos iraquianos, comprados na lojinha de 1,99 da esquina. Já a mulher levou um susto ao olhar para o interior da privada:

- Nossa, esse cocozão aí não é do meu filho! Mas é um jaguara o Adrem, caga e não tem coragem de puxar a descarga! Adrem estava ali, imóvel, ainda com ânsia devido ao cheiro, o qual se unira com o odor comum a vasos sanitários. O pior era que não apenas sentia o cheiro daquilo, mas percebia a sua composição através do tato, bem como experimentava aquele sabor inimaginável.

Sua mulher olhava fixamente para a privada. Parecia irritada, pois acreditava que o marido, com fama de preguiçoso e cagão nato, tinha feito aquela monstruosidade e não havia tido coragem de puxar a descarga. Puxar a descarga...pensou Adrem. Oh não! A idéia o assustou. O que poderia acontecer caso sua esposa puxasse a descarga? Para onde ele iria, para o esgoto?! O que aconteceria lá?! Mas e se ficasse preso no encanamento, visto sua espessura nada comum a um cocô de uma pessoa normal?!
Viu a mão da cônjuge ir em direção da cordinha. Seria aquele o fim?

Capítulo 1- Um cocozão

Numa manhã inóspita, ao despertar de sonhos nada agradáveis - os quais provavelmente foram consequência da bebedeira do dia anterior - Adrem Ococ deu por si no vaso sanitário transformado num imenso toletão descomunal.
Tentou acordar do pesadelo, mas parecia impossível aquilo. Não conseguia se movimentar, por mais que tentasse. Ainda detinha os cinco sentidos, pois podia enxergar o tão familiar azulejo manchado da parede do banheiro, o qual era para ser cor de gelo; conseguia sentir aquela água suja que o circundava; degustava o mesmo líquido asqueroso e ouvia os barulhinhos daquela sua estrutura pegajosa, quentinha e borbulhante. Como podia sentir nojo de si mesmo?
Estava certo que aquilo só poderia ser um sonho muito ruim. Como uma pessoa estaria naquela situação, enxergando por aquela perspectiva de dentro do próprio vaso sanitário? Além disso, o seu formato era grande, e seria quase impossível não ficar entalado no encanamento, caso alguém resolvesse puxar a descarga. Só que aquele tipo de pensamento parecia loucura para Adrem Ococ, pois a qualquer momento ele teria de despertar daquele pesadelo. Em meio às incertezas, elucubrações, quando ainda não podia acreditar no que estava acontecendo, um barulho desviou a atenção de nosso amigo: era o trinco da porta do banheiro se movimentando...